.24 de maio de 2017

Orlando - Virginia Woolf

    


     Virginia Woolf é um dos maiores nome do Modernismo Inglês e uma das maiores autoras da literatura mundial. E também no ano passado decidi que leria os livros dela, mas após algumas pesquisas básicas, achei que não estava preparada para sua técnica de fluxo de consciência, tão característica, por isso li outros autores como Lygia Fagundes Telles e Falkner para que, nesse ano, me sentisse mais "confortável", só que para minha total surpresa, o primeiro livro escolhido para adentrar a obra de Woolf é escrito de maneira bem direta e até mesmo linear.
Orlando conta a história de um rapaz jovem e nobre, contemporâneo da Rainha Elizabeth I que, com o passar dos anos, de repente, não mais que de repente, torna-se uma mulher. Sim, você não leu errado, ele se transforma em uma mulher, física e mentalmente, como isso acontece? Não importa.
Com certeza você deve ter notado um certo teor fantástico nesse romance, mas a mudança de gênero da protagonista não é o único elemento fora do "natural" da trama, uma vez que a narrativa começa no final da Era Elizabethana e termina no início do século XX, ou seja, a personagem-título também é imortal. 
Todos esses elementos fantásticos não são explicados pelo narrador, e muito menos questionados pelas personagens. A transformação de Orlando em "a" Orlando, além de sua juventude e vida eternas são levadas por todos de maneira bem cotidiana e corriqueira, mas tudo é descrito de maneira muito reflexiva, sempre trazendo um questionamento referente aos vários tabus da época.
A melhor parte do livro, sem sombra de dúvidas, é o capítulo no qual a narradora descreve metaforicamente o "surgimento" do século XIX e de seus costumes tão característicos, a obra já vale muitíssimo só por essa passagem que é de uma sagacidade brilhante.
Sinceramente, não é que eu não tenha gostado de Orlando, gostei, a narrativa feita em formato de "biografia" é bem instigante, mas eu esperava algo diferente, acho que passei tanto tempo lendo resenhas de livros da autora que falavam a respeito do intimismo, fluxo de consciência que, enfim, se não tivesse o maravilhoso capítulo supracitado, com certeza, sairia dessa leitura bem frustrada... 
Esse livro é muito interessante para aqueles que como eu querem saber mais a respeito de questões de gênero da maneira como elas devem ser vistas: algo natural, se a pessoa se sente uma mulher, o que a impede de sê-lo? Ou o contrário? No caso de Orlando, tudo acontece tão naturalmente que a crítica da autora pode passar despercebida, mas atentem-se, a falta de explicações têm motivos e a reflexão e o respeito são alguns deles. 

.20 de maio de 2017

O feiticeiro e a Sombra - Úrsula K. Le Guin



Também no ano passado, fiz uma maratona para assistir a todos os filmes do Studio Ghibli e uma das produções era Contos de Terramar, para escrever a resenha referente a este, precisei pesquisar alguns dados técnicos e descobri que o filme é baseado em uma série de livros, me interessei e decidi que esse ano leria, pelo menos, o primeiro da saga (são seis no total) e é sobre ele que falaremos hoje.
O Feiticeiro e a Sombra narra os primeiros feitos do grande Arquimago Gued, o Gavião. A história é ambientada no arquipélago fictício de Terramar, onde magia, criaturas míticas e seres humanos coexistem, mas não em paz...
Aqui, conjurar magia significa saber o nome "verdadeiro" de todas as coisas e criaturas, logo, ninguém diz seu nome verdadeiro a quem não confia plenamente, pois isso é muito perigoso. Esse ponto da narrativa me fez lembrar um pouco de História sem Fim.
Nosso protagonista, nasce em uma pequena ilha, criado em uma família muito pobre, no entanto, desde pequeno já demonstrava grande poder chamando a atenção de um poderoso arquimago da época.
Na casa do mago, o garoto começa seu treinamento, mas a falta de maturidade e a arrogância o fazem provocar um acidente e então ele decide ir a Ilha dos Feiticeiros, perdendo contato com seu primeiro mestre.
Na escola. Gued se mostra um aluno promissor, porém, mais uma vez, sua arrogância o leva a cometer um erro gravíssimo: ele liberta, no mundo, uma sombra maligna e muito poderosa, e esta passa a persegui-lo a fim de apossar-se de seu corpo e poderes.
O livro vai contar como Gued conseguiu destruir sua sombra e como se tornou mais sábio depois disso, além de todas as aventuras "menores" que viveu ao longo do percurso. 
Não sei muito mais a respeito dessa série, pelo menos em páginas de língua portuguesa não há muita informação, mas isso não importa porque O Feiticeiro e a Sombra é o que podemos considerar de uma história "redonda", caso você sinta necessidade de conhecer os demais feitos da protagonista, pode ler as obras seguintes, se não, como é o meu caso, só essa basta e é um bom entretenimento. 

.16 de maio de 2017

Para Poder Viver - Yeonmi Park



      No ano passado, estava passeando por uma livraria no Shopping Penha, aqui na zona Leste de São Paulo, quando me deparei com esse livro e fiquei muito tempo pensando a respeito do título, eu queria entender o que uma moça tão bonita e com um semblante tão sereno precisara passar para poder viver e confesso: não estava preparada para tudo isso e chorei muito durante a leitura. 
Yeonmi Park é uma jovem naturalizada sul-coreana de vinte e três anos (minha idade também), estudante de Direito, ativista política e escritora, mas nem sempre foi assim, pois, infelizmente, essa menina nasceu na Coreia do Norte. 
O texto é narrado pela protagonista e dividido em três partes cronologicamente organizadas: Coreia do Norte, China e Coreia do Sul, traçando todo o caminho percorrido pela moça desde antes de seu nascimento, com a criação de seu país, até o presente momento. 
Esse livro é, acima de tudo, uma denúncia, não só dos horrores que ocorrem na parte temida do antigo "Reino Eremita", como também dos que ocorrem na China por causa do tráfico humano proveniente das fugas constantes de norte-coreanos.
Ao longo da leitura nos sentimos muito mal por perceber que Yeonmi tinha uma sub vida e ao chegar na China, onde, pensava, encontraria sua liberdade, ledo engano, entra em um pesadelo ainda pior sendo estuprada, usada e comercializada como um animal, tudo isso aos treze anos de idade...
Essa história é uma grande lição de vida, de verdade, após essa leitura passei a enxergar melhor a minha vida e tudo o que me cerca e percebi que meus problemas não são nada perto do que essas mulheres passaram e, enquanto eu era uma pré-adolescente comum, Yeonmi já estava lutando para poder viver. Ela tinha todos os motivos e justificativas para desistir de sua vida, sua própria nação incentivava isso, porém, essa menina escolheu ser forte e corajosa, ultrapassando diversos obstáculos e tornando-se um exemplo de superação para todos nós. Excelente leitura, mais do que recomendada para todos. 



.12 de maio de 2017

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago

       


       Saramago era ateu. 
      Começo esse texto falando isso para você entender que esse "evangelho" é uma versão crítica e realista, a visão de um ateu a respeito de tudo aquilo que ele presenciou ao longo de sua vida em uma sociedade religiosa e, até mesmo, o que o fez desacreditar das religiões e de suas versões divinas. 
     Nesse livro, acompanhamos a história de Jesus através de um narrador observador que ao mesmo tempo que está no passado, também conhece o futuro e parece participar dele. Todas as personagens desse conto são muito humanizadas, Maria não era virgem quando concebeu Jesus, ela e José tiveram muitos outros filhos, além dessa família ter vários problemas tanto comuns, por causa da quantidade de bocas para alimentar, quanto pelas consciências desses pais que fizeram tudo para salvar o primogênito "escolhido por Deus", esquecendo a solidariedade pelo próximo. 
      O personagem Jesus, diferente do que é dito em A Bíblia Sagrada não é "perfeito", muito pelo contrário, ele não aceita os comandos divinos sem questioná-los, vive em conflito interno, pois não entende o que Deus quer dele e se isso é algo realmente bom, ou seja, ele é um ser humano imperfeito e em constante processo evolutivo. 
     Já por esses motivos, entendemos porque esse livro foi banido em tantos países nos primeiros anos após sua publicação e há também a segunda maior polêmica: a castidade de Jesus que, aqui, é inexistente, porque o rapaz foi casado com Maria Madalena e a amou de verdade, até o final de sua vida.
    Agora, a primeira grande polêmica se refere ao papel das divindades, uma vez que Deus e Diabo são praticamente sócios, tendo vários interesses em comum e a morte de Jesus é para um algo estritamente necessário, para o outro, nem tanto... 
    Muitos vão dizer, nossa, nada a ver, esse livro é uma afronta. Gente, é só um livro! É apenas uma visão diferente de uma história conhecida, ponto. Vou dizer o que eu penso sinceramente a respeito de toda essa polêmica a cerca desse romance: se você se sente ofendido com o modo como esse livro retrata o Novo Testamento, isso significa que a sua crença individual não é tão grande assim, porque, ao meu ver, frisando mais uma vez, a partir do momento que você acredita verdadeiramente em algo, não importa o que os outros digam, você continuará firme em suas convicções, logo, para mim, toda essa galera que diz ser Saramago um autor herege e coisas que o valham, são muito hipócritas e maçantes. 
    Por isso, caso você queira analisar um ponto de vista diferente dos primórdios da mitologia Cristã, sem preconceitos ou pré-julgamentos, leia este livro e atente-se ao capítulo no qual Deus, Jesus e Diabo têm uma conversa franca sobre o futuro da humanidade, é imperdível. 



.8 de maio de 2017

[ANÁLISE] - Clube da Luta - Chuck Palahniuk

     

      Sou um hipócrita. Sempre concordo com aqueles discursos anticorrupção, compartilho mensagens deste teor nas redes sociais, grito a frase sem propósito “fora, Temer!”. Contudo, assisto a filmes e séries em sites duvidosos, uso e abuso de torrents piratas, PDFs de livros distribuídos sem autorização. Pequenas corrupções. Uma lista interminável delas. Ainda assim, preciso de um emprego para pagar meu acesso à internet, a energia elétrica de casa, as roupas, os Burger Kings e McDonald’s. Nas palavras de Tyler Durden, “porcarias de que não precisamos”. Creio que, se eu participasse de uma noite no Clube da Luta, Tyler socaria minha cara até arrancar todos os meus dentes.
      Não pretendo nesta postagem apresentar o Clube, pois a Andréa já fez este trabalho de maneira excelente. Caso você ainda não tenha lido a primeira publicação dela sobre este livro de Chuck Palahniuk, clique aqui antes de seguir em frente.
      Acredito que o Clube da Luta foi a segunda leitura mais violenta que eu fiz até hoje, perdendo apenas para O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Ambos não têm nada a ver, exceto pela violência. No caso do Clube, o cerne é basicamente existencialista, uma vez que Palahniuk se apoia na ideia de self destruction como caminho para a libertação. Não se trata de um texto sobre lutas, mas algo muito maior; este livro nos impele a refletir sobre nossos hábitos prejudiciais de consumo, nossa falta de vigor e preocupação com relação à sociedade na qual fazemos parte.


     Sobre o estilo empregado pelo autor, creio que todo consumidor da obra sinta certa aversão às palavras. Se você ainda não leu e pretende fazê-lo, tenha consciência de que estará pondo as mãos em coisas sujas. No Clube da Luta você não dorme, você abraça homens suados e sangrando, você trabalha como garçom num hotel chique e urina na sopa dos hóspedes. A narrativa em primeira pessoa coloca você no centro da história, lado a lado com Tyler Durden, a pessoa que vai lhe salvar do lixão existencial que é a sua vida.
     Quando Chuck Palahniuk teve a ideia de escrever o Clube da Luta, ele estava entediado no trabalho. Para passar o tempo ocioso, decidiu criar um conto, e para tanto seguiu o padrão de sete páginas que seu professor de redação lhe ensinara. O texto se originou como um Frankenstein: uma junção de vários detalhes que rodeavam o autor naquele momento.
   Por exemplo, na época estavam em alta nas livrarias coleções como “clube de artesanato das empreendedoras” ou “clube de moda para mulheres”. Vendo este tipo de livro, Palahniuk decidiu criar em seu texto uma versão “for men” dessa tendência. Outra inspiração do autor foi uma reportagem de TV cujo tema tratava dos perigosos meninos criados sem pai, que se uniam em gangues de rua e enfrentavam-se em lutas violentas.
    O resultado da junção de tais ideias se deu como Clube da Luta, um conto de sete páginas escrito e publicado numa antologia chamada The Pursuit of Happiness, pela editora norte-americana Blue Heron Press, sendo a primeira obra de Palahniuk a vir a público. Alguns anos depois, este conto se tornou o capítulo 6 do livro Clube da Luta.
     Logo que foi publicado, em 1996, a obra foi alvo de críticas diversas. Em suma, poucas pessoas entendiam o real intuito do autor. Um detalhe que achei particularmente interessante está num relato do próprio Chuck. Segue a paráfrase:

“Em um avião para Portland um comissário de bordo se aproximou de mim e pediu para eu dizer a verdade a ele. Sua teoria era de que o livro não era sobre lutas. Ele insistia que era sobre gays assistindo uns aos outros transando em saunas públicas. E respondi que sim, que se dane. E ele me deu bebidas grátis pelo resto do voo” (Chuck Palahniuk. Clube da Luta. Leya, 2012, p. 268).

     Como você pode ver, eu li a edição mais atual da Leya. Considero uma boa edição por terem usado papel pólen (aquele amarelinho que não cansa a vista) e as orelhas são bem grandes, o que dá maior sustentação à capa. Falando nela, tem detalhes em auto relevo e mistura parte fosca e espelhada, criando um efeito bonito. A revisão deixou a desejar do capítulo 8 ao 10, com palavras ora faltando, ora em duplicidade. Em alguns momentos isto pode desencorajar a leitura, mas não desista! Do capítulo 11 em diante tudo volta ao normal, sendo garantidos os socos e pontapés (não necessariamente físicos, mas existenciais).

Por Samuel de Andrade

.27 de abril de 2017

Músicas que estou ouvindo...

Olá, pessoal! Hoje vamos falar um pouquinho de música? Vamos! Nesse mês de Abril, eu meio que voltei a ouvir algumas músicas que sempre gostei muito, mas que não dava atenção há um bom tempo, várias delas são da New Wave e outras são aquele bom e velho pop dançante que anima todo mundo.


Ai, gente, eu adoro The Smiths! A voz do Morrissey é incrível e a letra dessa música é muito linda e condiz com muito do que estou sentindo nesse momento da minha vida, por isso não paro de ouvi-la.


Essa música faz parte da trilha sonora de Donnie Darko e estou viciada, simples assim! Não consigo parar de ouvir.


O álbum Songs of the Universe é muito bom, adoro quase todas as músicas, mas Come Back toca meu coração de uma forma

.24 de abril de 2017

Dona Flor e Seus Dois Maridos - Jorge Amado

    

     Gente, o que está acontecendo?!! Esse ano está muito estranho! Não estou lendo com a frequência que gostaria, mas também, pudera, como os astrólogos disseram, o ano de 2017 é o ano do trabalho e, nossa, estou trabalhando demais, não consigo encontrar tempo para completar minha TBR ou para escrever aqui, algo que me deixa muito chateada mesmo... Esse mês, foi praticamente todo dedicado a Dona Flor e seus dois maridos e não por a história ser chata, ou a narrativa massante, é porque o tempo está escasso mesmo, mas cada hora dedicada a um livro de Jorge Amado é sempre recompensadora. 
      A história começa no Carnaval, narrando o dia da morte de Vadinho, marido da protagonista que dá título à obra, homem boêmio, fez a esposa sofrer muito durante os sete anos vividos juntos. Após esse acontecimento, temos uma mescla do passado com o presente: vemos como eles se conheceram, suas origens e os anos de casamento e, ao mesmo tempo, como a pobre viúva lida com a saudade do falecido e o conflito interno que isso lhe causa, afinal, ele a atormentou por anos. 
      Apesar da narrativa se passar na Bahia da "Era do Rádio", Flor é uma mulher independente, tem sua escola de culinária, sustentando-se muito bem sozinha, visto que quando vivo, Vadinho nunca trabalhara e ainda a roubava para jogar e beber. 
    Mais ou menos um ano se passa e nossa protagonista casa-se com Teodoro, farmacêutico metódico, excelente profissional, excelente pessoa, excelente marido, enfim, o homem exala excelência, no entanto, não é muito criativo na "arte do amor" como era o falecido, fazendo Flor, mais uma vez, entrar em conflito: tem um marido maravilhoso, porém este não consegue aplacar sua paixão, motivo pelo qual ela decidiu casar pela segunda vez, verdade seja dita! É quando surge, sem mais nem menos,o fantasma do primeiro marido, vindo do além para atormentar e quem sabe, por que não, saciar os desejos de nossa heroína... 
     Como em Tenda dos Milagres, veremos aqui a presença forte do Candomblé e de seus orixás ao longo de todo o livro, algo que, para mim, já vale muito a pena. Apenas uma coisa me desagradou na história desse triângulo amoroso, o excesso de rodeios até chegar à situação-título, isso meio que me fez ter uma interpretação errada do contexto, porque eu não sabia nada, nada a respeito dessa história, mas, de modo geral, Dona Flor e seus dois maridos é uma crônica de costumes muito instigante e deliciosa também. 

© LIVRE LENDO - 2016 | Todos os direitos reservados. | Blog de Andrea Morais | Tecnologia do Blogger